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Caravaggio, Madalena
REALISMO E NATURALISMO
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A Europa
do século XIX sofre profundas alterações a todos os níveis.
As grandes revoluções científicas, técnicas e industriais são
acompanhadas por uma enorme agitação social, em grande parte resultante
da segunda fase da Revolução Industrial. O idealismo romântico, em vez
de solucionar os problemas, tinha-os agravado. Em 1857,
surge, em França, Madame Bovary, de Gustave Flaubert, considerado
o primeiro romance realista da literatura universal. Dez anos
depois, Emile Zola publica Thérèse Raquin, inaugurando o romance
naturalista. Eça de Queirós, na 4.ª Conferência do Casino Lisbonense afirma que "O Realismo é uma reacção contra o Romantismo: O Romantismo era a apoteose do sentimento; - o Realismo é a anatomia do carácter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos - para nos conhecermos, para que saibamos se somos verdadeiros ou falsos, para condenar o que houver de mau na nossa sociedade". Realismo O Realismo
apresenta-se como uma doutrina filosófica e uma corrente estética e
literária que procura a conformação com a realidade. As suas características
estão intimamente ligadas ao momento histórico, reflectindo as novas
descobertas científicas, as evoluções tecnológicas e as ideias
sociais, políticas e económicas da época. O Realismo
preocupa-se com a verdade dos factos, a realidade concreta, a explicação
lógica dos comportamentos. Procura ver a realidade de forma objectiva e
surge como reacção ao idealismo e ao subjectivismo emocional românticos.
Como movimento da arte e da literatura, procura representar o mundo
exterior de uma forma fidedigna, sem interferência de reflexões
intelectuais nem preconceitos, e voltada para a análise das condições
políticas, económicas e sociais. Romance
realista O romance
realista é de carácter documental, procurando fazer o retrato de
uma época, dando conta dos espaços sociais, normalmente da burguesia. É
isso que se observa n’ Os Maias de
Eça de Queirós e que se depreende desde o início com o subtítulo
"Episódios da Vida Romântica".
Aí, através da comédia de costumes, procura observar diversos quadros
sociais e denunciar a corrupção, a frivolidade, a superficialidade, a
ignorância e as mentalidades retrógradas. O romance
realista surge orientado para a análise psicológica da sociedade,
criticando-a a partir do comportamento das personagens, nomeadamente das
que se consideram das classes dominantes, e procurando captar as condições
mais miseráveis e torpes da vida real.
Naturalismo O Naturalismo
surge muito próximo do Realismo e chega a ser confundido com ele.
Mas, se tem semelhanças, também tem diferenças. O Naturalismo
pode definir-se como uma concepção filosófica que considera a Natureza
como única realidade existente, recusando explicações que transcendam
as ciências naturais. Graças às teorias positivistas e experimentais,
passa a interessar-se pelo estudo analítico. Não lhe bastam os quadros
objectivos da realidade, mas analisa também as circunstâncias sociais
que envolvem cada personagem.
Como num laboratório de ciências médico-biológicas,
a obra naturalista procura explicar as suas personagens através da análise
aos problemas e doenças hereditárias, aos antecedentes familiares, à
sua educação, ao meio social em que foram criadas e em que desempenham
as suas actividades ou à sua posição económica. Romance
naturalista
O romance
naturalista é, em geral, de carácter experimental e cientificista,
um romance de tese que se orienta para a análise social e valorização
do colectivo. Procura mostrar o indivíduo como produto de um conjunto de
factores "naturais" - meio em que vive e sobre o qual pode agir
momento e hereditariedade psicofisiológica - geradores de comportamentos
e situações específicas. No romance experimental naturalista, a personalidade humana é determinada ou configurada por forças instintivas naturais que não devem ser reprimidas.
Semelhanças e diferenças entre o Realismo e o Naturalismo
(a literatura como instrumento de análise de tipos sociais e como
reforma dos costumes)
Os
termos Realismo e Naturalismo surgem,
frequentemente, associados. Há quem prefira ver o Naturalismo como um
prolongamento do Realismo, mas mais consistente e pesquisador Alguns
afirmam que o Naturalismo é um Realismo exacerbado. O próprio Eça de
Queirós, no episódio do jantar do Hotel Central, n’ Os
Maias, não é claro na explicitação destes dois conceitos.
Há, de facto, semelhanças e diferenças entre Realismo e
Naturalismo. Ambos partem da realidade que observam e procuram uma mesma
conclusão. Mas enquanto o Realismo se ocupa da realidade imediata,
próxima e objectiva, tentando retratar o indivíduo interagindo no seu
meio social, o Naturalismo interessa-se pelas causas últimas que podem
gerar comportamentos e situações específicas. O Naturalismo
retrata o lado patológico do indivíduo, o seu comportamento em obediência
aos instintos e condicionado pelo meio e pela hereditariedade, a
incapacidade de modificar o destino que o persegue. A obra naturalista
interessa o aspecto materialista da existência humana, simples produto
biológico, de que é necessário descrever de forma precisa, minuciosa,
fria e exacta, as reacções sem nenhuma interferência de ordem pessoal
ou moral.
Tanto o Realismo como o Naturalismo surgem contra o
tradicionalismo romântico, num verdadeiro compromisso com a realidade do
mundo objectivo e o momento presente das suas observações. Os escritores
e artistas de qualquer destas tendências procuram, sem preconceitos,
representar os problemas concretos e quotidianos do seu tempo.
Frequentemente, são anticlericais, enquanto se opõem à defesa de
ideologias ultrapassadas; são antimonárquicos, considerando a monarquia
falida; e antiburgueses, pois a burguesia surge como a verdadeira imagem e
status dos românticos.
Nas obras realistas e naturalistas, as personagens
individuais, retiradas da vida quotidiana, retratam comportamentos e reacções,
apresentando-se como representativas de uma categoria social.
Privilegiando a narração, as obras realistas e naturalistas
recorrem a uma linguagem próxima do texto informativo, clara e simples,
usando a ordem directa nas construções sintácticas e sem grandes artifícios
metafóricos ou outros para traduzir a realidade. Em muitas obras de escritores realistas, podemos encontrar marcas do Naturalismo. O romance Os Maias, por exemplo, apresenta-nos o comportamento e o suicídio de Pedro da Maia determinados pela educação, pelo meio social e pela hereditariedade psicofisiológica.
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Questão
Coimbrã O
aparecimento do Realismo em Portugal surge associado à Questão
Coimbrã, célebre polémica literária, suscitada por uma carta-posfácio,
escrita por A. Feliciano de Castilho, em 1865, e inserida no livro de Pinheiro
Chagas, Poema da Mocidade, que teve como resposta o opúsculo Bom
Senso e Bom Gosto (1866) de Antero de Quental. Nesse posfácio,
Castilho aproveitara para criticar e acusar de exibicionistas e
obscuros, um grupo de poetas de Coimbra, citando Teófilo Braga, Vieira de
Castro e Antero de Quental. Em Bom Senso e Bom Gosto, Antero
reage contra o conservadorismo, contra a literatura de salão ultra-romântica
e contra a falta de ideias, defendendo o progresso, uma literatura viva e
comprometida com novos tempos, com os conhecimentos trazidos pelas correntes
filosóficas e pelas descobertas científicas da época. Eça
de Queirós, em Notas Contemporâneas,
aborda a Questão Coimbrã, afirmando que "Coimbra vivia
então numa grande actividade, ou antes, num grande tumulto mental" E
acrescenta “relativamente a Antero de Quental e a Teófilo Braga, o
vetusto árcade mostrou intolerância e malignidade, deprimindo e escarnecendo
dois escritores moços, portadores de uma ideia e de uma expressão próprias,
só porque eles as produziam sem primeiramente, de cabeça curva, terem pedido
o selo e o visto para os seus livros à mesa censória, instalada sob a seca
olaia do seco cantor do Primavera. O protesto de Antero foi portanto
moral, não literário. A sua faiscante carta Bom Senso e Bom Gosto
continuava, nos domínios do pensamento, o guerra por ele encetada contra
todos os tiranetes, e pedagogos, e reitores obsoletos, e gendarmes
espirituais, com quem topava ao penetrar, homem livre, no mundo que queria
livre." Geração de 70 A partir
da Questão Coimbrã, diversos jovens estudantes de Coimbra revelam-se
inconformados e convictos de que é necessário superar as limitações da
tradição e do Conservadorismo em Portugal. É a chamada "Geração
de 70" quem se assume como consciência de uma época e da
necessidade de mudança para um novo século e uma nova mentalidade. Antero
de Quental é o mais importante "líder" e são dele os
principais textos contra a geração ultra-romântica. Eça
de Queirós, em Notas Contemporâneas, afirma que:
"Todos os Manifestos ao País, que a tradição nos impunha no começo
destas sedições, saíam da pena de Antero - porque já ele era, além da
melhor ideia da Academia, o seu melhor verbo. E enfim foi ele ainda quem se
rebelou contra outro e bem estranho despotismo, o da literatura oficial, na tão
famosa e tão verbosa Questão Coimbrã." Conferências
do Casino
As palavras de ordem e a polémica literária e cultural que se
iniciara com a Questão Coimbrã transferem-se de Coimbra para Lisboa,
adquirindo um novo sentido com o Grupo do Cenáculo, a funcionar próximo
do Chiado, liderado por Antero de Quental.
Mas as propostas e os debates acerca da renovação cultural portuguesa só
ganham projecção política e social com as Conferências do Casino, cujo
Programa é assinado em 16 de Maio de 1871.
As Conferências Democráticas do Casino Lisbonense realizaram-se numa
sala da esquina da Travessa da Trindade (hoje Largo Rafael Bordalo Pinheiro),
mas rapidamente foram proibidas por uma portaria assinada pelo Marquês de Ávila
e Bolama, presidente do Ministério, alegando que os oradores suscitavam
"doutrinas e proposições que atacavam a religião e as instituições
do Estado".
A Geração de 70 procurou,
com estas Conferências, fazer um debate mais amplo sobre o pensamento
moderno e as transformações que tardavam a acontecer em Portugal. No
Programa dos Conferências, publicado em 16 de Maio de 187l, lia-se que
visavam: ð
"[...] Ligar Portugal com o movimento
moderno, fazendo-o assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive a
Humanidade civilizada; ð
Procurar adquirir a consciência dos factos
que nos rodeiam na Europa; ð
Agitar na opinião pública as grandes
questões da Filosofia e da Ciência moderna; ð
Estudar
as condições de transformação política, económica e religiosa da
sociedade portuguesa." Obras
consultadas e aconselhadas Ferreira, Alberto (1971):
"A Questão Coimbrã: antecedentes e início da polémica",
"Significação ideológica da Questão Coimbrã", in Perspectiva
do Romantismo Português. Lisboa: Edições 70, pp. 201-245. França, José Augusto
(1974): “A Questão Coimbrã: Literatura e Moral", in O
Romantismo em Portugal. Lisboa: Livros Horizonte, 5.º vol., pp. 839-881. Machado, Álvaro Manuel
(1977): A Geração de 70 - Uma Revolução Cultural e Literária,
Lisboa: ICALP, col. Biblioteca Breve. Machado, Álvaro Manuel
(1987): A Geração de 70. Lisboa: Circulo de Leitores. Quadros, António
(1967): "As Conferências do Casino e o seu significado no contexto
português", in As Grandes Polémicas Portuguesas. Lisboa: ed.
Verbo. Reis, Carlos (1995):
"Realismo e Naturalismo" in O Conhecimento do Literatura,
Introdução aos Estudos Literários. Coimbra: Almedina, pp. 435-452. Simões, João Gaspar
(1973): A Geração de 70, alguns tópicos para
a sua história. Lisboa: ed. Inquérito. Páginas
da Internet recomendadas http://www.citi.pt/cultura/temas/frameset_1870.html http://www.citi.pt/cultura/temas/frameset_realismo.html |
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