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          LITERATURA  na NET
 
 

 

Para cima
José Saramago
Vergílio Ferreira
Eugénio de Andrade
Miguel Torga
Fernando Pessoa
Sophia de Mello Breyner
Luís de Sttau Monteiro

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MIGUEL TORGA

 

 

 

 

 

Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, nasceu em 1907 em S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, Trás-os-Montes, e faleceu em 17 de Janeiro de 1995 em Coimbra. Emigrou para o Brasil ainda jovem e, quando regressou em 1925, matriculou-se na Universidade de Coimbra onde se formou em Medicina. Esteve de início literariamente próximo do grupo da Presença, sediado em Coimbra. Por volta de 1930, estava já afastado do grupo, fundando a revista Sinal. Funda pouco depois a revista Manisfesto. Começou a ser conhecido como poeta, tendo mais tarde ganho notoriedade com os seus contos ruralistas e os seus dezasseis volumes de Diário, estes publicados entre 1941-1995. Várias vezes nomeado para o Prémio Nobel da Literatura, tornou-se um dos mais conhecidos autores portugueses do século XX.

 

Torga é a voz de uma terra - Trás-os-Montes -, frequentemente isolada e inóspita, mas de uma grandeza ímpar. É também a voz de um povo rude e melancólico, mas de carácter firme e nobre. A sua obra é um todo literário e humano, desde os livros autobiográficos como A Criação do Mundo ou os Diários até aos seus poemas. Preocupado com a autenticidade criadora, na linha do pensamento inicial do grupo da revista Presença, recusou pertencer a escolas ou movimentos. Sem deixar de parte um certo comprometimento social, Torga projecta na escrita as suas preocupações com o ser humano, as suas limitações e a sua necessidade de transcendência. Há um sofrimento magoado, feito desassossego, que tanto permite a esperança como conduz ao desespero.

 

A poesia de Miguel Torga apresenta três grandes linhas de rumo: um "desespero humanista", uma problemática religiosa e um sentimento telúrico. A revolta e o inconformismo são, frequentemente, tradutores desse desespero humanista que resulta de um desespero religioso mais profundo e que o coloca em permanente conflito entre o divino e o terreno.

Nota-se, também, uma inspiração genesíaca a percorrer muitos dos seus poemas, pois para Torga a terra é o lugar da realização do ser humano e da sua ligação ao sagrado. Na terra fértil, a fecundação permite a vida do Homem que se reproduz na busca de novas vidas.

 

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TEMAS

Revolta da inocência humana contra a divindade transcendente

 

Torga sente constantemente a provação nos trabalhos, na realidade mais crua e dura da vida, na resistência aos poderes, na dor própria e alheia. Muitas vezes, como médico, sofre impotente por não poder salvar o paciente que morre e que procurara junto de si a esperança do milagre. Esperança e desesperança surgem como expressão de um conflito íntimo que se desenvolve no interior do Poeta. Há, sobretudo, um grito da sua inocência que busca força e consciência para entender um certo sentido de destino trágico do ser limitado que é o Homem. A descrença e a revolta contra uma divindade transcendente, que surge na sua obra, parece reflectir a sua angústia.

Eduardo Lourenço, em Tempo de Poesia, fala do desespero religioso em Torga. Afirma que "é o fundamento consciente ou inconsciente dos outros todos ou pelo menos é um desassossego último que dá aos outros o seu significado mais profundo." E acrescenta que este desespero é que "define Miguel Torga perante si mesmo, é a sua cruz pessoal e ao mesmo tempo o seu sinal distintivo de entre a sua geração e as gerações mais novas de quem o aproximámos. Deus não é uma palavra morta na poesia de Miguel Torga".

O desespero religioso leva Torga a um constante monólogo verdadeiramente inquieto com DeusA palavra Deus é substantiva, torna-se mesmo obsessão. Precisa do Deus imanente, próximo e revelado, mas as suas conclusões racionalistas tornam-no inatingível. Sophia afirma que "o divino que aparece na obra de Torga não mora na imanência, à qual se opõe, mas sim na transcendência."

O conflito com a divindade transcendente é uma presença constante na poesia torguiana.

 

Obsessão telúrica

 

Para Torga, o Homem deve ser capaz de realizar-se no mundo. Deve unir-se à terra, ser-lhe fiel, para que a vida tenha sentido e o próprio sagrado se exprima. A terra é o lugar concreto e natural do Homem.

 A terra surge, para o Poeta, como o ventre materno, o "chão duro que recebe o semente e que procria”. A tarefa humana deve orientar-se para esse sentido criador, genesíaco. Ao arar com a charrua ou ao lançar a semente que há-de germinar, o Homem executa um verdadeiro rito nupcial que não só estreita as suas relações com a terra, como a torna expressão do divino.

Trás-os-Montes, com o seu Reino Maravilhoso, com esse bravio arbusto, chamado torga, surge na obra de Adolfo Rocha como a terra de Deus e dos deuses. Na sua terra natal, encontrou a ternura e o sofrimento, o povo concreto com as suas alegrias e as suas tristezas, a sua tranquilidade e o seu esforço.

O telurismo de Torga exprime-se constantemente no seu apego à terra, na sua fidelidade ao povo, na sua consciência de português, de ibérico, no espírito de comunhão europeia e universal. O Poeta  busca na terra a sua verdade universal, mas sente a condição humana com todos os seus limites.

O sentimento telúrico presente na obra torguiana revela bem a ligação entre o espírito genesíaco e o sentido do sagrado. Mesmo quando afasta Deus, há uma percepção de um criador que se exprime na terra fecundada. São constantes os campos semânticos que traduzem este sentido genesíaco, como se observa por palavras como “cio”, “procriar", "fermento", "germinar", "semente", "semear", “sexo", "sémen", "fecunda", "seiva”, “parir”, etc.

 

Mito de Anteu

O mito de Anteu surge em Torga a exprimir o telurismo. O Poeta sente-se revigorado sempre que toca o solo e, por isso, canta ou invoca a aliança com a terra.

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POEMAS

 

A Terra

Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.

Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.

Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!

Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.

Terra, minha aliada
Na criação!
Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração!

E por isso te rasgo de magia
E te lanço nos braços a colheita
Que hás de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.

Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro dum corpo nu, moreno!

A charrua das leivas não concebe
Uma bolota que não dê carvalhos;
A minha, planta orvalhos...
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos.

Terra, minha canção!
Ode de pólo a pólo erguida
Pela beleza que não sabe a pão
Mas ao gosto da vida!

 

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São Leonardo da Galafura

À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!

 

 

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Regresso

 

Regresso às fragas de onde me roubaram.

Ah! minha serra, minha dura infância!

Como os rijos carvalhos me acenaram,

Mal eu surgi, cansado, da distância!

 

Cantava cada fonte à sua porta:

O poeta voltou!

Atrás ia ficando a terra morta

Dos versos que o desterro esfarelou.

 

Depois o céu abriu-se num sorriso,

E eu deitei-me no colo dos penedos

A contar aventuras e segredos

Aos deuses do meu velho paraíso.

 

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Páginas da Internet:

  1. http://www.citi.pt/cultura/temas/frameset_presenca.html

  2. http://www.terravista.pt/guincho/4599/torga/index.html