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EUGÉNIO DE ANDRADE
 

 

          "Poeta da intensidade" (como lhe chamou Vergílio Ferreira) ou "o grande poeta do amor da poesia portuguesa do século XX" (segundo afirma António José Saraiva), Eugénio de Andrade sabe escolher as palavras e as imagens para nos transmitir com musicalidade o sentido do maravilhoso, da esperança e da plenitude.

Em Eugénio de Andrade, a palavra faz parte da magia, permitindo-lhe traduzir e provocar emoções. Na sua poesia, a palavra certa, colocada com precisão, segreda sentimentos, revela o desassossego do espírito, transporta-nos ao mistério da vida que se reflecte como um espelho, acontece radiosa. Palavra luminosa, serena ou rumorosa, precisa e plena, cheia de dignidade, tanto serve para exprimir o alvoroço e a inquietação como para revelar memórias e exteriorizar nostalgias. 

    Com palavras simples e numa linguagem fácil, contagiante e franca, mas insinuante, a poesia adquire transparência, tornando-se cristalina. Graças a um vocabulário solar e pleno de nitidez, traduzido em expressões sinceras e breves, traduz toda a sua verdade das coisas e das pessoas, dos olhares e dos gestos, das emoções e dos sentimentos, das paisagens e dos lugares, da vida e do mundo.

        Marcada pelos ritmos frásicos orais e por metáforas, quase obsessivas, que se movimentam no dorso das palavras, metamorfoseando-se, a poesia de Eugénio de Andrade apresenta-se límpida e singular; inocente e sensual, pura e ardente, sempre marcada pela fluidez. Como afirma Jorge de Sena (in Grande Dicionário de Literatura Portuguesa e de Teoria Literária), "a sua poesia, carregada de metáforas, quando o próprio poema não é todo ele uma, possui, porém, uma limpidez firme e fluente, em que tudo se concentra numa emoção extremamente lúcida e totalmente transposta, destituída de sombras e de inibições, mas sempre contida nos limites de uma elegante reserva confessional".

            Incidência nas ligações corpo-escrita-terra ( ou outros elementos primordiais da Natureza)

Poeta solar e das palavras de uma inocência infantina, EUGÉNIO DE ANDRADE procura através das potencialidades imagísticas, metafóricas e rítmicas celebrar a intensidade da vida e o modo de estar. Como refere a página oficial da Fundação Eugénio de Andrade, "a sua poesia, de carácter essencialmente solar, constrói um lugar onde o corpo humano e a Natureza se fundem, num universo muito concreto mas transfigurado por uma percepção sensorial e sensual do circundante. Cada um dos seus poemas encerra na sua unidade um depuradíssimo trabalho da língua".

A ligação do corpo à escrita pode sintetizar-se nas expressões do próprio poeta, que, numa entrevista ao jornal Público (27 Março de 1992), considera que "a escrita é uma fatalidade", precisando do "papel como de um corpo” e “como de um corpo, só tinha necessidade dele em determinadas ocasiões." Na mesma entrevista, mostra que esse corpo e essa escrita possuem uma grande ligação e "fidelidade à terra, à língua, ao calor animal de alguns encontros afortunados".

          Para EUGÉNIO DE ANDRADE, a poesia (e a literatura) é apenas um "ofício de paciência", que se prolonga num discurso breve e incisivo, franco e límpido, sempre idêntico e diferente, mas que usa palavras maternas, aprendidas no contacto com a terra e abertas aos seus múltiplos sentidos. Note-se essa claridade poética, a brevidade do verbo, a emotiva forma da sua arte de fazer versos em que a terra lhe traz toda a ciência e toda a verdade:

 

A Arte dos Versos

Toda a ciência está aqui,

na maneira como esta mulher

dos arredores de Cantão,

ou dos campos de Alpedrinha,

rega quatro ou cinco leiras

de couves: mão certeira

com a água,

intimidade com a terra,

empenho do coração.

Assim se fez o poema.

 

Ø       A "intimidade com a terra" permitiu ao poeta fazer o poema e exprimir o homem em harmonia exacta. Note-se a presença da figura feminina, de sentido maternal, nesta imagem da terra, fazendo recordar a afirmação do autor em Prosa e Poesia (vol. III): "Foi com a terra, o vento, a luz, a água, foi sobretudo com a minha mãe, que aprendi essas palavras transparentes, cheias de brilhos." E acrescenta: "Falar da terra ou da mãe é falar da mesma coisa. Quando digo mãe digo terra, quando digo terra digo mãe. O corpo, esse, é uma explosão: é nele que se dá o encontro com o outro, é a descoberta da razão da vida".

 

As ligações corpo-escrita-terra são uma constante na poesia de EUGÉNIO DE ANDRADE. A mãe que, tantas vezes, como o próprio reconhece, cantava romances que ele mal entendia, não só o seduziu com os ritmos das palavras e dos sons, como favoreceu o seu conhecimento da terra e a aquisição das "imagens arquetípicas" a que, frequentemente, recorre, como a "fonte" ou a "água” , a “árvore" e a "flor”, a “ave”, a “luz" e a “brisa", ou o "campo" com a "seara" e o "prado". E foi neste contacto com a terra que "os sentidos despertaram e se abandonaram ao desejo de outro corpo" (ibidem).

           Na sua poesia há não só o mundo terreno, feito dos rios e dos montes, das árvores e dos animais, dos amigos e de todas as coisas materiais, mas também toda uma relação sincera, terna e afectiva com tudo o que, apresentando-se aos sentidos, pode provocar o apelo. E ainda que o erotismo se pressinta e revele a sexualidade do poeta, as palavras dão conta de uma sinceridade e de um saber estar no mundo com toda a simplicidade, numa fusão de corpos que condensa e se encerra na Natureza.

A interacção corpo-terra-palavra tem a sua explicação lógica: a terra é a origem do Homem e nela os sentidos despertam, o seu corpo realiza-se; para exprimir as sensações, as emoções e os sentimentos desta presença na terra e do estimular dos sentidos, o ser humano precisa da palavra. Daí EUGÉNIO DE ANDRADE assumir-se como poeta da terra, cantando-a como sinónimo de vida. Na terra, o homem e a mulher amam-se, o corpo cresce e a esperança no futuro brota. Na terra, símbolo de fertilidade e habitação do ser, se aprende a vida, mesmo quando a liberdade não circula. A escrita poética, graças às palavras exactas, permite animar o corpo que se confunde com o ritmo da terra. A harmonia cósmica é, assim, iluminada pela palavra que permite revelar o corpo, ser voz do Homem, comunicar a vida.

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        Os quatro elementos míticos (fogo, água, ar, terra) metamorfoseados; a Natureza, as flores (rosas); a busca da pureza essencial

        A luz clara da manhã ou "o sol por nascer / do tamanho do mundo", uma "paisagem de água", o "ar que se respira" ou a "carícia da terra" perpetuamente vivem na poesia de EUGÉNIO DE ANDRADE. Dá muita importância aos quatro elementos da Natureza - fogo, água, ar e terra  e a tudo o que a convoca: o vento, a luz, as fontes, os rios e o mar, a areia, os barcos e os peixes, os pássaros e os animais, os frutos como as amoras e as romãs, as flores como as rosas ou os lilases, os rumores e o "cheiro forte" ou o sal.

      O fogo, com todo o ardor, não só simboliza o rito solar e a constante renovação da Natureza, como incorpora as celebrações do corpo, dos sentidos, da própria vida. O amor é fogo e o corpo vive pela combustão permanente, que nele acontece. Mas o fogo também destrói e purifica, aniquilando e permitindo recriar um novo mundo ou nova terra. Por isso, o fogo continua a arder nos versos de EUGÉNIO DE ANDRADE. A sua fotobiografia intitula-se O amigo mais íntimo do Sol, numa manifesta homenagem à claridade solar; à luz e ao calor do fogo que a Natureza oferece à Terra.

      A água, das fontes, dos rios ou dos mares, tanto nos devolve às origens como ao mistério do fluir da existência, à efemeridade, ou nos aponta a transparência da verdadeira vida. A água associa-se à fecundidade, à vida natural e, cristalina, remete para a pureza da criação e para a busca da harmonia do futuro. "É no mar crepuscular e materno da memória, onde as águas superiores não foram ainda separadas das inferiores, que as imagens do poeta sonham, pela primeira vez, com a precária e fugidia luz da terra" (in Rosto Precário). Afirma Óscar Lopes (Mãe d'Água ou a Poesia de Eugénio de Andrade) que "água, ou (e algo diversamente) águas, plural de ressonância bíblica, têm em EUGÉNIO DE ANDRADE muito de princípio vital, erótico, seminal; podem ser matinais ou anoitecidas, e neste último caso dir-se-ia imagem da diluição na morte, mais ou menos à vista; podem estar ocultas, por pudor ou repressão, mas também romper, falicamente nuas e/ou duras, se não mesmo tresmalhadas; sentimo-las felizes, mas "também em demência" e acrescenta "é na água que navegam as palavras, a poesia; nada surpreende que aquosa seja também a imagem da música, do sonho, do sono profundo, e do próprio ser «sem memória», portanto da morte."

O ar, e tudo o que é volátil, sugere uma certa libertação da nossa condição terrestre. O ar é símbolo da vida, ligando-se ao hálito vital, criador. No ar "a respiração é doce". E, porque aí habitam as aves, há uma liberdade original, pura e inocente. Mas o ar é efémero, como a vida, como o amor, como tudo o que é intenso.

A terra, com os seus animais, as suas flores ou os seus frutos, surge como berço, escola de aprendizagem e lugar da realização. Símbolo do ventre materno e da fertilidade, a terra é corpo, segurança e perfeição criadora. Aí o Poeta reencontra a Mãe e "ao falar da terra ou da mãe é falar da mesma coisa" (in Prosa e Poesia). A mãe e o falar materno trazem-lhe o paraíso da infância, a quentura e a intimidade com a terra. Aí o corpo encontra-se, descobre a razão da vida e encontra o lugar do amor. As flores e os frutos ou as árvores são, frequentemente, metáfora do corpo e do toque amoroso. ( Ver manual pág.329 – Despertar)

   Estes quatro elementos míticos são uma constante na poesia de EUGÉNIO DE ANDRADE. Reflectem a busca da pureza essencial. Servem para cantar o amor e exprimir musicalmente a beleza sensual, mas, igualmente, para evocar a reconciliação e a inteireza do Homem. Eles são fundamentais para reencontrar o outro corpo, os outros seres e a própria solidão. A Natureza e o corpo humano unem-se num universo límpido e lúcido transfigurado por uma percepção e uma vivência sensual e sensorial. Uma força vital na Natureza, que tudo impulsiona, celebra a vida na sua plenitude. E nesta relação do homem com a Natureza, o Poeta procura a unidade original.

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    TEXTO 1

 

       Das coisas melhores que me aconteceram na vida foi ter nascido numa aldeia da Beira Baixa, e aí ter passado toda a minha infância. Como sou filho, neto e bisneto de camponeses, em casa havia apenas um só livro, uma Vida de Santos que ninguém lia, pois as poucas letras que alguns homens da família haviam aprendido tinham-nas esquecido quase todas. Meteram-me na escola aos seis anos de idade, aprendia facilmente, mas nunca li o tal alfarrábio, pois o meu mundo também não era o das letras, mas o dos pássaros e do vento, o das águas e dos amieiros. Essa era a "poesia" que me chegava, mas havia outra, ela vinha na voz de minha mãe, e nos seus intermináveis romances, cuja lembrança me aquece ainda. (...)

        Quando começou então o seu interesse pela poesia escrita?

        Um pouco mais tarde, já em Lisboa. Devia andar pelos meus doze anos quando me caiu nas mãos e, literalmente, devorei a biblioteca de um vizinho. Não era grande, mas bem escolhida: a par de Júlio Verne, Jack London e Alexandre Dumas, havia clássicos e românticos portugueses, os grandes romancistas russos, todo o Eça, todo o Junqueiro, algum Aquilino. E um poeta moderno, nesses anos muito célebre: António Botto. Comecei então a escrever poesia, se não é descaro dar tal nome ao que fazia. Como não tinha letrados na família e queria saber, como acontece a qualquer bicho-careta que faz versos, se eles tinham algum valor, escrevi uma carta ao António Botto e juntava-lhe três ou quatro poemas. Botto marcou-me um encontro numa livraria da Rua do Carmo. Eu era então - e ainda sou - muito tímido. Certamente falei pouco. António Botto estava com um amigo, a quem me apresentou. Admirou-se muito que eu fosse tão novo, depois tirou os meus poemas da carteira e leu-os mais para o amigo do que para mim. Quem conheceu António Botto sabe que ele lia admiravelmente. Os meus versos pareceram-me outros e as palavras que o poeta encontrou para me dizer tiraram-me o sono durante alguns dias. É preciso que se diga que eu teria então quinze anos e nunca havia revelado a ninguém que fazia versos, o que escondia como doença vergonhosa, ou coisa assim, igualmente triste.

  Um dia António Botto aconselhou-me a publicar uns versos sobre um tema que lhe era particularmente grato, o da beleza que se contempla e se compraz em si mesma. Foi uma alegria ver o meu nome impresso, mas passado pouco tempo tinha tanta vergonha de haver publicado versos tão ingénuos que passei a assinar com outro nome aquilo que ia escrevendo. Voltei a publicar, voltei a arrepender-me, e não seria essa a última vez. Frequentemente desejei não ter escrito um único verso, o anonimato total, o silêncio. Estive meses e até anos sem escrever uma só linha, com nojo da poesia, como se fora excreção imunda. É que, desde muito cedo, escrever foi para mim a ambição de exprimir uma certa consciência do mundo, consciência infeliz, naturalmente, mas responsável, e sempre o que fazia me parecia muito aquém da minha ambição.

          Ficámos amigos, passei a vê-lo frequentemente; a ele (e ao amigo que me apresentou no nosso primeiro encontro) sou-lhe devedor do conhecimento de Fernando Pessoa e dos poetas presencistas. Pessoa ia tomar conta de mim: passei tardes e tardes inteiras na Biblioteca Nacional a copiar em cadernos escolares os seus versos de revistas já então muito raras. Foi um tempo admirável.

in Rosto Precário, pp. 54-57

 

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TEXTO 2

 

Sou filho de camponeses, passei a infância numa daquelas aldeias da Beira Baixa que prolongam o Alentejo e, desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água. Nesse tempo, que só não foi de pobreza por estar cheio do amor vigilante e sem fadiga de minha mãe, aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São essas coisas que os meus versos amam e exaltam. A terra e a água, a luz e o vento consubstanciaram-se para dar corpo a todo o amor de que a minha poesia é capaz. As minhas raízes mergulham desde a infância no mundo mais elementar. Guardo desse tempo o gosto por uma arquitectura extremamente clara e despida, que os meus poemas tanto se têm empenhado em reflectir; o amor pela brancura da cal, a que se mistura invariavelmente, no meu espírito, o canto duro das cigarras; uma preferência pela linguagem falada, quase reduzida às palavras nuas e limpas de um cerimonial arcaico - o da comunicação das necessidades primeiras do corpo e da alma. Dessa infância trouxe também o desprezo pelo luxo, que nas suas múltiplas formas é sempre uma degradação; a plenitude dos instantes em que o ser mergulha inteiro nas suas águas, talvez porque então o mundo não estivesse dividido, a luz cindia (dividida), o bem e o mal compartimentados; e, ainda, uma repugnância por todos os dualismos, tão do gosto da cultura ocidental, sobretudo por aqueles que conduzem à mineralização do desejo num coração de homem. A pureza, de que tanto se tem falado a propósito da minha poesia, é simplesmente paixão, paixão pelas coisas da terra, na sua forma mais ardente e ainda não consumada.

Eugénio de Andrade

 

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