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Deus quer,

o homem sonha,

a obra nasce

...

Mensagem


Arquitectura e símbolos da "Mensagem"

 

As três partes em que se divide o livro e a organização de cada uma delas revelam a importância fundamental da estruturação triádica e a oscilação tendente para um esquema de síntese quíntupla. As três divisões principais são as seguintes: heráldica - BRASÃO; descobertas - MAR PORTUGUÊS; profecia - O ENCOBERTO. (...)

A posição intermédia de «Mar Português» estabelece a sucessão império material/império espiritual, porquanto no mar se simboliza a essência de um ideal ser-se português - o estar com a distância é o jamais aceitar ser-se vencido, o não se contentar de ser vencedor. (...)

A unidade do poema é construída a partir de valores simbólicos que integram o passado histórico transfigurado em mito e a invenção de um futuro. Os heróis míticos figuram sucessivamente: a formação e a consolidação da nacionalidade; as descobertas e a expansão imperial; a esperança de um novo império. Em cada uma das partes que concorrem para a totalidade se podem encontrar figuras dominantes: Nun’Álvares, o Infante, D. Sebastião. Todavia, o que ressalta desse conjunto originado numa rigorosa selecção é que não são factos ou feitos gloriosos, empíricos, que criam o destino, mas o processo de mitologização que lhes confere vida espiritual fazendo que concorram para uma conjunção de atitudes e valores.

Num plural harmonioso se reúne a inconsciência e a consciência, como motores de acção; os heróis movidos por um instinto obscuro e os que agem voluntariamente. Nele confluem o activo e o passivo, a coragem guerreira e a capacidade de sacrifício, o desejo de posse e a contemplação sem objectivos.

                        

Silvina Rodrigues Lopes

in Mensagem de Fernando Pessoa,

 24-26

    (texto com supressões)

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  Alguns poemas da MENSAGEM:

( poemas  que não se encontram no Manual)

I - Primeira Parte: Brasão

               Bellum sine bello.
 

          (...)
          SEGUNDO
             O DAS QUINAS

       Os Deuses vendem quando dão.
          Compra-se a glória com desgraça.
          Ai dos felizes, porque são
          Só o que passa!

          Baste a quem baste o que lhe basta
          O bastante de lhe bastar!
          A vida é breve, a alma é vasta:
          Ter é tardar.

          Foi com desgraça e com vileza
          Que Deus ao Cristo definiu:
          Assim o opôs à Natureza
          E Filho o ungiu.

          (...)
          SEGUNDO
              VIRIATO 

       
Se a alma que sente e faz conhece
          Só porque lembra o que esqueceu,
          Vivemos, raça, porque houvesse
          Memória em nós do instinto teu.

          Nação porque reencarnaste,
          Povo porque ressuscitou
          Ou tu, ou o de que eras a haste —
          Assim se Portugal formou.

          Teu ser é como aquela fria
          Luz que precede a madrugada,
          E é já o ir a haver o dia
          Na antemanhã, confuso nada.

          TERCEIRO
              O CONDE D. HENRIQUE

       
Todo começo é involuntário.
          Deus é o agente.
          O herói a si assiste, vário
          E inconsciente.

          À espada em tuas mãos achada
          Teu olhar desce.
          «Que farei eu com esta espada?»
          Ergueste-a, e fez-se.

          QUARTO
               D. TAREJA

       
As nações todas são mistérios.
          Cada uma é todo o mundo a sós.
          Ó mãe de reis e avó de impérios,
          Vela por nós!

          Teu seio augusto amamentou
          Com bruta e natural certeza
          O que, imprevisto, Deus fadou.
          Por ele reza!

          Dê tua prece outro destino
          A quem fadou o instinto teu!
          O homem que foi o teu menino
          Envelheceu.

          Mas todo vivo é eterno infante
          Onde estás e não há o dia.
          No antigo seio, vigilante,
          De novo o cria!

          QUINTO
               D. AFONSO HENRIQUES

       
Pai, foste cavaleiro.
          Hoje a vigília é nossa.
          Dá-nos o exemplo inteiro
          E a tua inteira força!

          Dá, contra a hora em que, errada,
          Novos infiéis vençam,
          A bênção como espada,
          A espada como bênção!
 
        (...)
       
SÉTIMO (I)
              D. JOÃO O PRIMEIRO

       
O homem e a hora são um só
          Quando Deus faz e a história é feita.
          O mais é carne, cujo pó
          A terra espreita.

          Mestre, sem o saber, do Templo
          Que Portugal foi feito ser,
          Que houveste a glória e deste o exemplo
          De o defender.

          Teu nome, eleito em sua fama,
          É, na ara da nossa alma interna,
          A que repele, eterna chama,
          A sombra eterna.

          SÉTIMO (II)
              D. FILIPA DE LENCASTRE

       
Que enigma havia em teu seio
          Que só génios concebia?
          Que arcanjo teus sonhos veio
          Velar, maternos, um dia?

          Volve a nós teu rosto sério,
          Princesa do Santo Graal,
          Humano ventre do Império,
          Madrinha de Portugal!


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          III.  AS QUINAS 

          PRIMEIRA
              D. DUARTE, REI DE PORTUGAL

       
Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.
          A regra de ser Rei almou meu ser,
          Em dia e letra escrupuloso e fundo.

          Firme em minha tristeza, tal vivi.
          Cumpri contra o Destino o meu dever.
          Inutilmente? Não, porque o cumpri.

       
(...)
        
  TERCEIRA
                D. PEDRO, REGENTE DE PORTUGAL

       
Claro em pensar, e claro no sentir,

          É claro no querer;
          Indiferente ao que há em conseguir
          Que seja só obter;

          Dúplice dono, sem me dividir,
          De dever e de ser —

          Não me podia a Sorte dar guarida
          Por não ser eu dos seus.
          Assim vivi, assim morri, a vida,
          Calmo sob mudos céus,
          Fiel à palavra dada e à ideia tida.
          Tudo o mais é com Deus!

          QUARTA
         
     D. JOÃO, INFANTE DE PORTUGAL

       
Não fui alguém. Minha alma estava estreita
          Entre tão grandes almas minhas pares,
          Inutilmente eleita,
          Virgemmente parada;

          Porque é do português, pai de amplos mares,
          Querer, poder só isto:
          O inteiro mar, ou a orla vã desfeita —
          O todo, ou o seu nada.

         (...)
      
UMA ASA DO GRIFO
              D. JOÃO O SEGUNDO 

       
Braços cruzados, fita além do mar.
          Parece em promontório uma alta serra —
          O limite da terra a dominar
          O mar que possa haver além da terra. 

          Seu formidável vulto solitário
          Enche de estar presente o mar e o céu
          E parece temer o mundo vário
          Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.

          A OUTRA ASA DO GRIFO
               AFONSO DE ALBUQUERQUE

       
De pé, sobre os países conquistados
          Desce os olhos cansados
          De ver o mundo e a injustiça e a sorte.
          Não pensa em vida ou morte
          Tão poderoso que não quer o quanto
          Pode, que o querer tanto
          Calcara mais do que o submisso mundo
          Sob o seu passo fundo.
          Três impérios do chão lhe a Sorte apanha. 
          Criou-os como quem desdenha.

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    ( Continua)