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CAMÕES

 

Luís Vaz de Camões terá nascido em Lisboa por volta de 1524, de uma família do Norte (Chaves).

Viveu algum tempo em Coimbra onde terá frequentado aulas de Humanidades no Mosteiro de Santa Cruz onde tinha um tio padre. Regressou a Lisboa, levando aí uma vida de boémia.

Em 1553, depois de ter sido preso devido a uma rixa, parte para a Índia. Fixou-se na cidade de Goa onde terá escrito grande parte da sua obra.

Regressa a Portugal em 1569, pobre e doente, conseguindo publicar Os Lusíadas em 1572 graças à influência de alguns amigos junto do rei D. Sebastião.

Faleceu em Lisboa no dia 10 de Junho de 1580.

É considerado o maior poeta português, situando-se a sua obra entre o Classicismo e o Maneirismo. Obras: Os Lusíadas (1572), Rimas (1595), El-Rei Seleuco (1587), Auto de Filodemo (1587) e Anfitriões (1587).

 

 

Sonetos de Camões:

 

 

A fermosura desta fresca serra
E a sombra dos verdes castanheiros,
O manso caminhar destes ribeiros,
Donde toda a tristeza se desterra;

O rouco som do mar, a  estranha terra,
O esconder do sol pelos outeiros,
O recolher dos gados derradeiros,
Das nuvens pelo ar a branda guerra;

Enfim, tudo o que  a rara Natureza
Com tanta variedade nos of'rece,
Me está, senão te vejo, magoando.

Sem ti, tudo me enjoa e me aborrece;
Sem ti, perpetuamente estou passando
Nas mores alegrias mor tristeza.

 

Aquela triste e leda madrugada, 
cheia toda de mágoa e de piedade, 
enquanto houver no mundo saudade 
quero que seja sempre celebrada. 

Ela só, quando amena e marchetada 
saía, dando ao mundo claridade, 
viu apartar-se d'uma outra vontade, 
que nunca poderá ver-se apartada. 

Ela só viu as lágrimas em fio 
que d'uns e d'outros olhos derivadas 
s'acrescentaram em grande e largo rio. 

Ela viu as palavras magoadas 
que puderam tornar o fogo frio, 
e dar descanso às almas condenadas. 

 

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Doces águas e claras do Mondego, 
doce repouso de minha lembrança, 
onde a comprida e pérfida esperança 
longo tempo após si me trouxe cego; 

de vós me aparto; mas, porém, não nego 
que inda a memória longa, que me alcança, 
me não deixa de vós fazer mudança, 
mas quanto mais me alongo, mais me achego. 

Bem pudera Fortuna este instrumento 
d'alma levar por terra nova e estranha, 
oferecido ao mar remoto e vento; 
  
mas alma, que de cá vos acompanha, 
nas asas do ligeiro pensamento, 
para vós, águas, voa, e em vós se banha.

 

O céu, a terra, o vento sossegado...
As ondas, que se estendem pela areia...
Os peixes, que no mar o sono enfreia...
O nocturno silêncio repousado...

O pescador Aónio, que, deitado
Onde co'o vento a água se meneia,
Chorando, o nome amado em vão nomeia,
Que não pode ser mais que nomeado:

- Ondas dizia antes que Amor me mate,
Tornai-me a minha Ninfa, que tão cedo
Me fizestes à morte estar sujeita.

Ninguém lhe fala; o mar de longe bate;
Move-se brandamente o arvoredo;
Leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita.

 

Ondados fios de ouro reluzente,
Que, agora da mão bela recolhidos,
Agora sobre as rosas estendidos,
Fazeis que sua beleza se acrescente;

Olhos, que vos moveis tão docemente,
Em mil divinos raios incendidos,
Se de cá me levais alma e sentidos,
Que fora, se de vós não fora ausente?

Honesto riso, que entre a mor fineza
De perlas e corais nasce e parece,
Se na alma em doces ecos não o ouvisse!

Se, imaginando só tanta beleza,
De si em nova glória, a alma se esquece,
Que fará quando a vir? Ah! quem a visse!

 

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Aqueles claros olhos que chorando
Ficavam, quando deles me partia,
Agora que farão? Quem mo diria?
Por ventura estarão em mim cuidando?

Se terão na memória, como ou quando
Deles me vi tão longe de alegria?
Ou se estarão aquele alegre dia
Que torne a vê-los, na alma figurando?

Se contarão as horas e os momentos?
Se acharão num momento muitos anos?
Se falarão co'as aves e co'os ventos?

Oh! bem-aventurados fingimentos,
Que nesta ausência tão doces enganos
Sabeis fazer aos tristes pensamentos!

 

Tanto de meu estado me acho incerto,
 Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, justamente choro e rio,
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando,
Num’ hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar um’hora.

Se me pergunta alguém porque assi ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

 

Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que pera mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa [a] que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!

 


Lisboa no séc. XVI

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